Logo de Questão de Gênero Logo de Questão de Gênero

2ª TEMPORADA

Nos últimos anos, o Brasil atravessa uma onda conservadora marcada pela perda de direitos e pelo avanço de discursos autoritários. O debate de gênero, frequentemente atacado, tornou-se um dos principais campos de batalha dessa polarização. A série “Questão de Gênero” surge nesse contexto como uma resposta documental e sensível, buscando ampliar a compreensão pública sobre as múltiplas expressões de gênero e sexualidade em Pernambuco.

A série parte do princípio de que conhecer é respeitar. Mais do que abordar diversidade sexual, propõe discutir o gênero como performance, invenção de si e construção cultural, articulando também as dimensões de classe, raça e território. Composta por oito episódios de 26 minutos, a temporada percorre o estado, das zonas rurais à capital, apresentando trajetórias de pessoas LGBTQIA+ cujas vivências ilustram a resistência cotidiana contra preconceitos estruturais.

Entre os personagens estão figuras históricas da cena queer recifense, como Raquel Simpson e Sharlene Esse; Marcelo Viana, primeiro homem trans da PMPE; Jéssica Caitano, artista do Pajeú; Desyrrê, transgressora do Sertão; a ONG Leões do Norte; Delly/Del Batista, do Cabo de Santo Agostinho; e Amun Há, performer do Recife. O encerramento celebra a Parada da Diversidade de Pernambuco, reunindo personagens da temporada em um gesto coletivo de celebração e resistência.

A série será conduzida por Ciel Santos, artista queer de Bezerros, e trará inserções educativas ao longo dos episódios. Realizada pela Eixo Audiovisual, produtora do interior de Pernambuco, e com equipe formada por profissionais com vivência LGBTQIA+, “Questão de Gênero” aposta na força do audiovisual para sensibilizar o público e colaborar com a desconstrução de estigmas, promovendo uma cultura democrática e plural no estado e no país.

Episódios

AS TRANSFORMISTAS

Quando a ditadura militar dá seus primeiros sinais de arrefecimento, renasce no Recife, o teatro de revista, com seu glamour, suas piadas picantes e sua crítica política. À frente desse processo, uma geração de artistas ditos transformistas conseguiu, pela ótica do burlesco e da transgressão do gênero, transformar, definitivamente, o teatro pernambucano.

ENTRE FARDAS E CICATRIZES

Marcelo Viana, 37 anos, é o único homem trans da Polícia Militar do estado de Pernambuco (PMPE). Em 2010, quando ingressou na corporação, Marcelo se identificou como mulher, pausando inclusive, por algum tempo, seu processo de transição. Por 28 anos, a transexualidade foi classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental, o que justificava legalmente a exclusão da população trans de processos seletivos, a exemplo do qual Marcelo se submeteu quando ingressou na PMPE. Hoje, Marcelo já concluiu sua transição. Está casado com sua companheira, Jaqueline Martins e juntos, criam 4 crianças. Fez sua aguardada mastectomia, usa barba, manipula testosterona diariamente, faz uso do banheiro masculino do espaço de trabalho e performa uma masculinidade convencional a qualquer homem cis. Contudo, as coisas nunca foram fáceis. Para realizar seu sonho de ser membro da PMPE, Marcelo atravessou um processo sofrido e silencioso que tentaremos revisitar ao longo desse episódio.

VERSOS DO SERTÃO QUEER

Nascida em Triunfo, cidade pernambucana na divisa com a Paraíba, é uma artista multifacetada. Cantora, compositora, rapper, coquista, percussionista, poetisa, declamadora, educadora e ativista, faz parte do trio de eletrococo moderno Radiola Serra Alta e coordena o grupo de dança e batuque Cambindas de Triunfo. Conhece como poucos a cultura e o folclore local e de sua região e o carrega em suas letras e músicas, bem como em outros projetos, como o Maracatu Serra Grande do Pajeú, onde toca percussão, e a CIA Lótus de Teatro, da qual é diretora musical.

TRANSGREDIR NA ZONA RURAL

No quarto episódio da série, provisoriamente intitulado "Desyrrê", viajaremos para Triunfo, cidade no interior de Pernambuco, para visitar Desyrrê, mulher trans de 27 anos que mora na zona rural da cidade e que, em 2018, fez sucesso como protagonista de um documentário homônimo, ganhando prêmios, menções honrosas e reconhecimento no cinema e em sua cidade. Estudante do curso técnico de radiologia da Universidade Anhanguera, em Serra Talhada, Desyrrê é uma mulher cuja vaidade e autoestima tornam-se sinônimos de resistência. Resistência que está estampada nos vestidos de tons fortes que marcam presença nas noites de festa, em seus batons rosados e vermelhos e nos saltos que faz questão de usar quando anda de moto, como uma forma de se afirmar mulher, apesar daqueles que a olham desconfiados. A história de Desyrrê é atravessada pelo filme que protagonizou (Desyrrê, 2018). Antes do filme, Desyrrê, que ganha a vida fazendo trabalhos domésticos pelo dia e cozinhando num bar local nos fins de semana, era um corpo em trânsito. Ela negociava sua representação de gênero a depender do quão se sentia aceita ou naturalizada pelos que a cercam. Na igreja, Desyrrê vestia-se e portava-se como homem, nas redes sociais, resistia a adotar o seu nome social, sentindo-se livre para performar sua feminilidade apenas em locais especiais ou quando se sentia segura.

O RUGIDO DAS PERIFERIAS

Neste episódio, mergulhamos na história e atuação do Movimento LGBT Leões do Norte, fundado em 2001 no bairro dos Coelhos, periferia do Recife. Com 20 anos de luta, o Movimento se firmou como referência na promoção da cidadania LGBTQIA+ em Pernambuco, oferecendo suporte jurídico, psicológico e político às vítimas de LGBTfobia. O episódio destaca a criação do aplicativo Rugido, ferramenta inovadora de denúncia e monitoramento de violências, que deu visibilidade a agressões antes invisibilizadas pelas estatísticas oficiais. A narrativa explora a trajetória de resistência e crescimento da organização, seu diálogo estratégico com o poder público e sua expansão para além da capital. Com ações em diversas regiões do estado, o Movimento aposta também na formação de novas lideranças nas periferias. Leões do Norte é mais que uma entidade: é rugido coletivo contra a intolerância e pelo direito de existir com dignidade.

DELLY & DEL: CORPO EM RECONSTRUÇÃO

Este episódio narra a trajetória potente e comovente de Edelfan, pessoa gênero-fluida que, ao longo da vida, se reinventa em diferentes identidades: Delly, a travesti das ruas, e Del, o líder comunitário respeitado. A cada trauma vivido — o abandono materno, a expulsão de casa, a violência sofrida — nossa personagem responde com reinvenção e coragem, dando novos nomes e formas ao próprio corpo e à própria existência. A narrativa revela como Delly e Del coexistem, expressando a fluidez de gênero como estratégia de resistência e sobrevivência. Com sensibilidade, o episódio articula identidade, memória e performance, mostrando como o gênero pode ser reconstruído a partir das marcas do passado. Da rua à liderança na periferia, essa história inspiradora expõe as violências e potências que atravessam vidas dissidentes. Delly e Del não são opostos, mas faces de uma mesma luta por dignidade, escuta e visibilidade.

AMUN HÁ: A NÃO BINÁRIA DO BREGA

Amun-Há transforma sua trajetória marcada por perdas, deslocamentos e violências em arte combativa e visceral. Travesti não-binária da periferia do Recife, ela mistura brega funk, funk carioca e sonoridades interioranas com performance, poesia e crítica social, criando um trabalho artístico profundamente político e esteticamente provocador. Sua narrativa mistura ancestralidade, gênero, antiproibicionismo e resistência, tornando cada show um ato de confronto à normatividade. O episódio acompanha sua trajetória desde a infância no interior de Pernambuco até sua formação artística na UFPE, passando pelos palcos independentes da cidade. Munhdana, seu primeiro álbum, é o ponto de partida para discutir corpo, dissidência e as redes de apoio entre pessoas trans e não-binárias. A linguagem visual, os versos potentes e o corre da artista revelam a complexidade de existir e criar sendo quem se é. Amun Há não apenas canta — ela denuncia, desafia e reinventa a cena cultural das periferias.

ALÉM DO ARCO-ÍRIS

O oitavo e último episódio da série mergulha na Parada da Diversidade de Pernambuco, evento que simboliza celebração, resistência e visibilidade da população LGBTQIA+. Apesar do brilho e da festa, o episódio revela as dificuldades e tensões por trás da organização da parada em um estado que lidera estatísticas de violência contra pessoas trans e travestis. Com uma abordagem sensível e política, a narrativa acompanha desde os bastidores dos preparativos até o desfile na Avenida Boa Viagem, revelando a pluralidade de corpos, identidades e lutas presentes. Entrevistas com lideranças, ativistas e participantes mostram o evento como palco de protesto e afirmação. A parada é tratada como espaço de expressão e também de reivindicação por políticas públicas efetivas. Encerrar a temporada com esse episódio reforça a urgência de ações concretas e convida todos a se engajarem pela causa, independentemente de sua identidade de gênero ou orientação sexual.
Eixo Audiovisual, Pernambuco Filmes, Funcultura, Fundarpe, Governo de Pernambuco, Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco